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ARTIGO - Caso Palmeira D´Oeste

Posicionamento sobre o episódio cultural de Palmeira D´Oeste

Publicado em: 03 de abril de 2018 às 18:34

Qual é o futuro que queremos?

No último dia 23 o Circuito Cultural Paulista, política pública do Governo do Estado de São Paulo produzida pela organização social de cultura APAA, levou a Palmeira D’Oeste a peça “#República Muito Além Q’Entre 4 Paredes”. A peça, com classificação indicativa de 14 anos, foi apresentada numa escola e teve uma ótima recepção de modo geral. Mas houve quem tenha achado o conteúdo ofensivo.

Antes de mais nada, não se trata aqui apenas de gosto. Gosto é algo muito pessoal e é sempre válida a máxima “O que seria do azul se todos gostassem do amarelo?”. Vivemos numa sociedade livre e democrática, portanto gostar ou não gostar de qualquer coisa é mais que válido. O problema é quando queremos negar a todos o acesso àquilo que não nos apetece.

A exemplo do que ocorreu no ano passado com a exposição “Queermuseu” em Porto Alegre, com a peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” em Jundiaí e com a performance “La Bête” em São Paulo, “#República Muito Além Q’Entre 4 Paredes” incomodou algumas pessoas em Palmeira D’Oeste. Viralizou na internet um vídeo da peça com uma cena isolada e sem qualquer contexto. A cena contém um beijo entre pessoas do mesmo sexo, beijos múltiplos e gestos corporais que insinuavam sexo. Ali, no espetáculo, tratava-se de um momento específico, onde os jovens personagens comemoravam uma grande conquista. Mas bastou para que surgissem queixas questionando o conteúdo.

O espetáculo foi encenado para um público direcionado e dentro da classificação indicativa comunicada. Assim sendo, precisamos falar sobre o verdadeiro problema por trás disso tudo – do que ocorreu em Palmeira D’Oeste e do que vem ocorrendo em nosso país nos últimos tempos. Existem alguns elefantes na sala e eles todos têm nome, todos eles com algum grau de parentesco: conservadorismo, preconceito e intolerância, para citar alguns.

Há um enorme perigo em se querer vendar os jovens para questões como sexualidade. Primeiro porque ela não pode ser tratada como algo errado. E se for uma questão de crença, tudo bem também, desde que a fé individual não interfira na vida alheia. Mas também não se pode evitar que tais assuntos sejam abordados. Porque eles existem, e eles devem ser tratados com a naturalidade que merecem.

Se estamos preparando nossos jovens para o futuro, tudo o que não precisamos é que eles se tornem adultos sem conhecimento acerca de si e do outro, sem bagagem para lidar com a diversidade, sem aptidão para compreender que a vida em sociedade envolve um espectro de pensamento muito mais amplo do que nossa esfera de amigos e familiares. Precisamos ensinar o respeito às diferenças, e não lutar para fingir que elas não existem. E não há melhor mecanismo para tal do que a cultura.

O Circuito Cultural Paulista já levou atrações gratuitas a centenas de municípios do estado de São Paulo e seguirá com sua missão de promover a democratização do acesso à cultura, prezando sempre pela qualidade de suas atrações, assim como pela diversidade. Essa perseguição às artes, conduzida por discursos absurdamente autoritários, só nos levará a um futuro sombrio e de ignorância. E a gente merece muito mais que isso. Afinal, almejamos um futuro de paz e tolerância ou de censura às vozes com as quais não concordamos?

Luis Sobral, diretor executivo da APAA?

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