Mas o que acontece quando uma colônia começa a crescer? Quem é responsável por esses animais? E alimentar uma população que vive nas ruas é suficiente para controlar o problema?
Essas são algumas das questões apresentadas em “Os Gatos da Casa Abandonada”, série documental criada pela jornalista e documentarista Stefania Fernandes, os cinco episódios já estão disponíveis no YouTube no canal A Louca dos Gatos. A produção acompanha uma história real que começa com quatro filhotes encontrados em uma garagem e leva à descoberta de uma colônia de gatos vivendo em uma casa abandonada.
A partir daí, a série acompanha moradores, pessoas que alimentam os animais, protetoras e conta com o apoio da bióloga Valéria Zukauskas para encontrar uma solução para a população felina. O que inicialmente parece ser um caso isolado passa a envolver questões como abandono, reprodução, castração, adoção e convivência entre os animais e a comunidade.
Uma colônia pode crescer mesmo quando alguém cuidaUm estudo realizado no Distrito Federal acompanhou durante 18 meses uma colônia que chegou a reunir 157 gatos. O trabalho envolveu captura, esterilização, devolução e adoção dos animais.
Ao final do período, a população havia sido reduzida em 47,8% e 98,8% dos gatos estavam esterilizados. O estudo também registrou 31 adoções e a entrada de novos animais na colônia por abandono ou deslocamento.
Os resultados mostram que o controle populacional depende de ações contínuas. A esterilização impede a reprodução dos animais já presentes, mas a entrada de novos gatos pode comprometer os resultados se o abandono continuar acontecendo.
A pesquisa também registrou uma mudança na dinâmica da colônia após a organização dos pontos e horários de alimentação. Os animais passaram a se concentrar em grupos menores, e os pesquisadores observaram redução de conflitos e ferimentos entre os gatos.
Alimentação é parte do cuidado, mas não resolve sozinha
Na maioria das colônias, a alimentação é o primeiro vínculo estabelecido entre os gatos e as pessoas. Quem começa a oferecer comida também passa a reconhecer os animais, identificar novos indivíduos e perceber quando algum deles está doente ou ferido.
O problema é que a oferta de alimento não interrompe a reprodução.
Sem esterilização, uma população pode continuar crescendo mesmo com acompanhamento diário. Por isso, programas de manejo de colônias costumam associar alimentação, identificação, atendimento veterinário, esterilização e, quando possível, encaminhamento para adoção.
É essa lógica que aparece na série. Depois de identificar os animais, a equipe organiza uma operação baseada no método CED — Captura, Esterilização e Devolução. O planejamento inclui a criação de uma rotina de alimentação para facilitar a captura e a organização dos procedimentos veterinários.
Na operação retratada no documentário, oito gatos foram capturados, castrados, identificados e devolvidos ao território onde viviam.
O que fazer com os gatos que já estão nas ruas?A situação das colônias coloca uma questão diferente daquela relacionada ao abandono de um animal doméstico: nem todos os gatos que vivem nas ruas podem ou precisam ser encaminhados imediatamente para adoção.
Alguns animais podem ser socializados e encontrar uma família. Outros apresentam comportamento mais adaptado à vida no território onde foram encontrados. A decisão depende das características de cada animal e das condições existentes para o manejo da população.
No estudo realizado no Distrito Federal, a adoção foi uma das estratégias utilizadas e representou 19,7% dos animais acompanhados. Ao mesmo tempo, os pesquisadores registraram novos abandonos e a chegada de gatos de outras áreas.
A combinação desses fatores mostra por que o controle de uma colônia não termina com a castração dos animais que já estão no local. É necessário evitar novos abandonos e acompanhar continuamente a população.
Quem assume a responsabilidade?Na prática, o cuidado de uma colônia costuma ser compartilhado. Moradores podem fornecer alimento, protetores podem organizar resgates e castrações e veterinários podem participar do atendimento. Em alguns casos, o poder público também desenvolve programas de esterilização e manejo.
A definição de responsabilidades, porém, ainda é um dos pontos de discussão sobre os chamados animais comunitários.No Distrito Federal, uma lei publicada em 2026 passou a estabelecer normas específicas para cães e gatos comunitários, incluindo medidas relacionadas à identificação, esterilização e conscientização sobre guarda responsável. Em São Paulo, projetos também discutem políticas específicas para animais comunitários.
O tema mostra que a presença de colônias deixou de ser apenas uma questão entre moradores e protetores. O crescimento dessas populações também envolve planejamento urbano, políticas de controle populacional e prevenção do abandono.
Na série, essa discussão aparece a partir de uma situação concreta. Uma casa abandonada, alguns filhotes e uma população de gatos levam moradores e protetores a buscar uma solução que não se limita ao resgate de um ou dois animais.
“É uma história que começou muito perto de mim, quase por acaso, e que foi crescendo à medida que fomos descobrindo a dimensão daquela situação. O que parecia ser apenas o encontro de alguns filhotes revelou uma realidade muito maior e nos colocou diante de perguntas sobre responsabilidade, cuidado e convivência”, afirma Stefania Fernandes.
“Os Gatos da Casa Abandonada” acompanha justamente esse processo: entender como aquela população chegou até ali, quem passou a cuidar dela e quais alternativas existem quando uma comunidade se depara com uma colônia de gatos sem tutor definido.
A série estreou em setembro, com cinco episódios.
Sobre a série“Os Gatos da Casa Abandonada” é uma série documental criada e apresentada pela jornalista e documentarista Stefania Fernandes. A produção acompanha uma história real envolvendo uma colônia de gatos e a mobilização de moradores, protetores e especialistas para encontrar alternativas de manejo para os animais.
Sobre Stefania FernandesJornalista e documentarista, Stefania Fernandes é pós-graduada em Cinema Documentário e atua como apresentadora, repórter, roteirista e documentarista. Também é responsável pela página A Louca dos Gatos, que reúne mais de 45 mil seguidores e aborda comportamento, conhecimento, consciência e convivência com os felinos.
Serviço
Série: Os Gatos da Casa Abandonada
Formato: Série documental
Episódios: 5
Criação e apresentação: Stefania Fernandes